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Sexta-feira, Setembro 26, 2003



Milton Dacosta

Minha geometria interior ressente-se
Quer expurgar abstratos sentidos
A visão cega
A audição surda
A fragância inodora
O toque contido
A expressão muda
A palavra subtraída
A declaração reprimida
Não lhe interessa mais que seu
inferno e silencioso vazio
esteja repleto deles
Suplica e deseja ardentemente
o concreto escarlate
Alarde
.::.

Mãe Terra me espera. Ele, o vento, veio me buscar. É hora de ir revê-la mais uma vez.

.::.


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Quarta-feira, Setembro 24, 2003




Onda e amor, onde amor, ando indagando
ao largo vento e à rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva.

As almas, não, as almas vão pairando,
e, esquecendo a lição que já se esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que é natureza corrosiva.

N´água e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.

E nem os elementos encantados
sabem do amor que os punge e que é , pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.

Carlos Drummond de Andrade


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Segunda-feira, Setembro 22, 2003




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Sábado, Setembro 20, 2003


.::. O PRESENTE .::.

Seguindo um projeto anterior de sucesso foi produzida com esmero há 4 décadas atrás.
É bem dimensionada, o tamanho mediano e o peso leve.

As linhas são modernas mas pode-se encontrar , encrustrados, pequenos detalhes
que remontam outros tempos. A essência do seu estilo segue um "padrão oriental"
quase minimalista. Pouco adornada, tem uma beleza simples e natural.

É extremamente resistente, sua madeira virgem exala uma doce fragância de sândalo.

Ao toque é extremamente delicada e frágil e seus contornos são finos e suaves.

Poucas marcas podem ser vistas tanto em seu exterior como no seu interior . Somente
uma observação minuciosa e bem de perto podem detectá-las.

Permanece quase sempre fechada , seu segredo é pouco conhecido e raramente se
tem acesso ao que guarda. Quando se abre , entretanto, pode-se ver cores , luzes ,
brilhos intensos e é revelado sedutoramente todo o seu encanto.

Ela é um "presente" , ou melhor, sempre foi um "duplo presente" !

.::.

Em 20 de setembro de 1933 eles se casaram e se presentearam um com o amor do outro.

Em 20 de setembro de 1935 nasceu sua filha, o presente de casamento deles.

Em 20 de setembro de 1963 nasceu a filha de sua filha, sua neta, o presente
de 28o aniversário de sua filha e o presente do 30o aniversário de casamento deles.

.::.

Este " presente" sou EU, eles são meus avós e ela , minha mãe.

A "jóia" foi garimpada a exatos 70 anos, mas continuo lapidando, com desvelo, ano a ano,
o diamante do amor e da vida daqueles que vieram antes de mim e que se fazem
eternos através de mim .

Eis minha maior lição e o meu mais valioso "presente", sempre .

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Quarta-feira, Setembro 17, 2003


.::. LAURANGÉLICA .::.



Idos de 1978, 17 de setembro mais precisamente. Ela nasceu minúscula.
Chamavam a atenção os seus cabelos louros, um nariz pequeno e achatado e os
olhinhos puxados. O diagnóstico: Síndrome de Down.

Era doce e calma embora carregasse consigo algumas deformações congênitas
principalmente no sistema digestivo e locomotor.

Cresceu sendo o xodó da família. Tudo para ela tinha que ser feito especialmente
e os cuidados redobrados devido às suas limitações e sua fragilidade física.

Hoje o corpo e a idade mental são de uma criança e o espírito também. É alegre,
comunicativa, meiga e brincalhona e às vezes geniosa e irascível. Não há quem se
aproxime dela e não seja recebida com um "chamego" dado na face
por aquelas mãozinhas que adoram acarinhar.

Por estes dias ficamos sabendo pela minha tia, sua mãe, que ela anda exultante
pela casa, não pelo seu aniversário, como qualquer criança, mas por suas
"Bodas de Prata".

Pensando bem, até que existe um fundamento para isto. É mesmo um casamento
de amor, uma união de 25 anos, nosso e de um "anjo", afinal seu nome não foi
escolhido em vão, Laurangélica.

.::.

Sigam a "música das cores e o aroma das flores" do quadro acima e encontrem
um "anjo colorido" que acabei de conhecer : " Togu ".

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Segunda-feira, Setembro 15, 2003




No ponto de Luz na mente de Deus,
Flua Luz às mentes dos homens,
Que a Luz desça à Terra.

No ponto de Amor no coração de Deus,
Flua Amor nos corações dos homens,
Que Cristo retorne à Terra.

Do centro onde a Vontade de Deus é conhecida,
Que o propósito guie as pequenas vontades dos homens,
O propósito que os Mestres conhecem e servem.

Do centro que chamamos a raça humana,
Que se realize o Plano de Amor e de Luz
E que se fechem as portas do mal.

Que a Luz, o Amor e o Poder restabeleçam o Plano Divino
sobre a Terra.


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Sexta-feira, Setembro 12, 2003


The Rape of Proserpina, detail
Gian Lorenzo Bernini

Ensejo lascivo
de transcendência da pele
Meta física dos sentidos
Anseio tangível
Pêlo olhar
Palavra língua
Profundo indizível
Entalhe intímo
no mármore da derme
Êxtase do toque


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Quarta-feira, Setembro 10, 2003


.::. FONTE PRIMITIVA .::.

Recentemente vivi um estado particular - sem água e sem energia elétrica.

Tudo começou pela manhã com o abastecimento de água sendo suspenso para
manutenção rotineira da rede . A previsão para o retorno seria no dia seguinte
à noite, portanto, 48 horas à seco usando com parcimônia a água estocada nas
caixas d´água.

Convenhamos, nada de mais, apenas a necessidade de um pequeno racionamento.
Contudo, quando se tem uma criança grande em casa ( "Dindinho" , meu tio-avô),
"roupas" são itens de troca constante. A solução? Enche-se uma banheira e de
joelhos lava-se as roupas com uma caneca. Entra em cena uma lavadeira em tempos
modernos.

No início da noite, inesperadamente, a energia elétrica também se vai. Uma ilha
de escuridão, nós, em meio a uma vizinhança iluminada.

Esperou-se até o dia seguinte para a descoberta da causa : o corte inadvertido
da fase neutra num transformador próximo .

Razões à parte, quando a energia se ausenta , toda lembrança de civilização também.
De joelhos pela água, agora de quatro pela luz.

Silêncio, vela à postos, um sopro ,e enfim, a completa escuridão.

Tão acolhedora... Sentidos realçados e pulsantes. Eu, minha vida e o tempo, agora
aglutinados, passamos a estar visíveis aos "cegos" olhos e quase
podíamos ser tocados e sentidos com as pontas dos dedos.

Dialoga-se com os pensamentos , os sentimentos perdem os nomes mas ganham forma
e afloram na pele , o coração entoa qual um tambor sua batida forte e pode-se
sentir o fluxo de sangue percorrendo as veias, o diafragma movimenta-se
compassadamente e até o ar aquecido sai pelas narinas chocando-se com o ar
frio ao redor. Os olhos sem a distração de fora voltam-se para dentro , para aquele
lugar isntintivo que vê o mistério perfeito da criação , se reconhece nele e o bebe.

Somos só um e tão cheios de tudo!

Não há passado nem futuro, só o presente... uma fonte inesgotável que flue e ilumina.

Lá fora a noite ia sendo calmamente inundada de luz até o nascer do dia e tudo seguiu
seu curso, como deve ser.


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Terça-feira, Setembro 09, 2003




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Sábado, Setembro 06, 2003


Noire et blanche
Man Ray

Metades, partes e faces
Dicotomias insones
Yin
Yang
Sagrado
Profano
O relevo é dissecado
A terceira dimensão exposta
Necessidade de experimentar
o que a máscara da realidade
subverte, subjuga e esconde
Os limites do real
são as próprias
fronteiras do imaginário
Em cada contorno
confusões de crenças e instintos
Não existem valores
Não existem verdades
Não existem certezas
Desconstrução
Afloram desejos intensos
até mesmo egoístas
Nenhuma ação pessoal
de devassa do eu
é isenta de vítimas
é o preço
o amálgama do uno


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Quinta-feira, Setembro 04, 2003




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Terça-feira, Setembro 02, 2003


.::. PRIMAVERA .::.

Nasceram!!!


No meu quintal todos os dias, religiosamente, pode-se ver e ouvir uma algazarra de
pequenos pássaros que vêm nos visitar. São pardais, rolinhas, bem-te-vis, beija-flores
e alguns que nem sei o nome. Sentem-se em casa, chegam e se vão, tomam água,
se alimentam, cantam, tomam sol ou apenas deixam-se ficar emoldurando as
árvores e os muros ao redor.

Em julho último, numa manhã igual a todas a outras, meu irmão grita profeticamente
ao sair de casa :

- Corre aqui, vem ver ! "Ele" está indo para perto da rua.

Era um pequeno filhote de rolinha que provavelmente caiu do ninho e inseguro, sem
saber voar direito, andava pelo jardim indo em direção ao meio-fio.

Tentamos cercá-lo e trazê-lo de volta. Ele escapulia em vôos curtinhos e desengonçados.

Tivemos a idéia de usar um pano. Fui correndo buscar uma toalha dentro de casa.

Ao retornar pude acompanhar o seu primeiro, único e grande vôo, infelizmente indo
em direção ao asfalto, exatamente no momento em que passava um carro .

Uma grande garra negra de unhas cortantes e pontiagudas cravou-se em mim
e a dor fez com que meus olhos "desandassem" a chorar. Por que? Tão pequenino e
indefeso. Eu não tinha nada que ter me metido em seu caminho, repetia para mim mesma.

Os dias se passaram...

Descobrimos a cerca de duas semanas , um ninho caprichosamente montado entre
as ripas e o varal de uma coberta no fundo do nosso quintal e nele uma rolinha
chocando seus ovos. Alvoroço e contentamento.

Todos os dias passava por lá discretamente , em "revista", para verificar se tudo
corria bem.

Ontem enfim... um filhotinho andava pelo chão e tentava alçar vôo. Acabara de
sair do ninho. Lá em cima um outro, o caçula , ainda minúsculo e com uma leve
penugem a cobrir o corpo , observando quieto e compenetrado o irmão mais velho.

E lá se foi o aprendiz experimentar as asas sob os cuidados e a atenção de sua mãe
e meu, é claro, acompanhando suas peripécias infantis. " Voilà"! Acabou pousando
desajeitadamente no telhado do outro lado.

Ah!!! Sábia natureza, mãe dileta, compartilhando sua beleza essencial e seguindo seu
curso calma e inexoravelmente. Depois de todo inverno, frio e morto, segue-se uma
florescente e viva primavera, assim como o ciclo de todas as coisas.

Dizem que sou "dramática" para estes acontecimentos ditos banais e tão corriqueiros.
Sim, sou. Sou o próprio espírito de Shakespeare encarnado e não me envergonho nem
um pouco de sê-lo. Sou um caso dramático e adoravelmente perdido, diria.

A vida é um espetáculo e tanto e adoro ser parte dele...os segredos de sua
beleza estão nos pequenos detalhes só observados quando nos apresentamos dia-a-dia,
de corpo e alma , em seu surpreendente e vasto palco ( ou tentamos, ao menos).


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