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Domingo, Novembro 30, 2003




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Sábado, Novembro 29, 2003


.::. AS INVASÕES BÁRBARAS .::.


Filme de Denys Arcand (Can-Fr/2003)

Invade, estimula a reflexão inteligente, sensibiliza o coração e fim.


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Quarta-feira, Novembro 26, 2003


.::. SINAL AMARELO .::.

Encontrei recentemente na minha mesinha de cabeçeira dois livros. Num deles,
semelhante àqueles de interpretação de sonhos - "Os equipamentos e eu, jogo
de associação" - pude ler os seguintes trechos:

Se a bateria do carro fica arriada, falta energia - você precisa de força , vigor e
estímulo.
Se o sistema elétrico dá pane, curto-circuito - você precisa desembaralhar suas
confusões e encontrar o ponto de tensão.
Se o software trava, falha no sistema - você precisa descobrir o que a paralisa.
Se o hardware "pifa", componentes danificados - alerta máximo, o corpo está
entrando em desgaste, perigo ...

Como não se pode comprar, consertar, reinstalar e pedir emprestado outra "vida",
assim como um carro ou um micro , acho que devo cuidar de mim rapidinho já
que as luzes amarelas se acenderam.

Pego então o segundo livro na cabeçeira. O título - "Faça você mesma, você consegue".
Com certeza é um convite e tanto, não sou engenheira elétrica à toa, portanto,mãos
à obra.


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Segunda-feira, Novembro 24, 2003


.::. SABOR PROUST .::.

Noite de domingo. A chamada de uma matéria no jornal me atrai a atenção. "Um dos grandes clássicos da literatura, "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust,
vira história em quadrinhos."

Proust e HQ numa mesma frase me causaram um enorme estranhamento. Nunca tive a oportunidade de ler Proust. Sabia-o um clássico, mas supunha ser literatura para intelectuais e entendidos. Enganei-me. Fui arrebatada pelo efeito "madaleine" ( uma espécie de brevidade) , matéria que ele julga sejam feitos os sonhos e as lembranças perdidas. Não só ela, acredito que também sejam uma música, um olhar, um pedaço de papel, um cheiro, uma palavra ... O passado e o "tempo" em suspensão esperando o despertar prazeiroso através dos sentidos , o reviver. Ah! Quantas vezes isto nos acontece ou gostaríamos que acontecesse . sermos transportados para a história que já foi um dia ou será. Lembranças e sonhos podem ser "doces" ou não, mas são muito bem-vindas quando o são, assim como Proust e sua essência.

Mas ao mesmo instante em que aquele gole, envolto com migalhas do bolo tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de causa. Esse prazer logo me tornara indiferente das vicissitudes da vida, inofensivos seus desastres,
ilusória sua brevidade, tal como faz o amor ... "

"De onde viera aquela intensa alegria? Sentia que estava ligada ao sabor do chá e do bolo, mas que o transcendia infinitamente, não devia ser da mesma natureza.A verdade que busco evidentemente não está no sabor, mas em mim. Ele despertou em mim... Preciso recomeçar dez vezes...Tudo bem, o que palpita no fundo de mim deve ser a imagem, a recordação visual, que, ligada a esse sabor, tenta trazê-lo a mim. Alcançará a superfície de minha consciência lúcida esta lembrança , o instante remoto... "

(Trechos de "Em Busca do Tempo Perdido" - em prosa e em HQ - o primeiro, tradução de Mario Quintana , o segundo, adaptação de Stéphane Heuet, tradução André Telles)


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Sexta-feira, Novembro 21, 2003



Paul Cézanne

Minhas montanhas e vales se expandem em rumos e domínios (des)conhecidos.

Afluentes se juntam ao rio que corre sem pressa trazendo novos sedimentos
que se depositam . Na sua confluência alguns ajudam a mudar devagar o curso
d´água, outros acentuam ou suavizam curvas e traçados, uns o fazem mais
caudaloso, outros o drenam e pode-se observar ali apenas um filete raso, mas
todos, sem exceção, o alimentam e de alguma forma o enriquecem.

Nas margens se vê a sombra aconchegante de árvores frondosas, ramagens
viçosas, flores campeiras de estação, mas também descampados secos e
ressequidos.

Picadas podem ser vistas passando por terrenos selvagens . Neles ouvidos
mais atentos escutam sons ora alegres, ora melancólicos quando asas batem
próximas ou pegadas são deixadas seja marcando a terra ou riscando o céu.

O vento perpassa e une a todos ecoando palavras, tons, sensações , opiniões e
sentimentos.

A paisagem pulsa se refazendo e se transformando continuamente além das
impressões do "pincel" , além da "tela", além de mim, além de nós. Isto é o que
a faz permancer mutável e livre assim como são , ou deveriam ser, todas as
paisagens humanas ou não , instigantes obras da natureza do/de viver.


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Quarta-feira, Novembro 19, 2003



Gustave Moreau

( conversam ao pé da porta quando anoitece
  alguns nos contam estórias outros nos fazem contemplar
  contemplar não tem tamanho
  até hoje não ouvi chuva na madrugada
  sem que estivessem à nossa espera
  soubemos ser ousados onde
  cai a poeira vermelha onde
  o papel de seda fica enrugado sob sol do meio-dia
  como saberemos se
  como decifrar os seus segredos como vir colar o seu silêncio
  contra a virilha contra o rosto lábios comecemos pelo fim ) quem

Marcos Siscar

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Segunda-feira, Novembro 17, 2003


.::. 1903 .::.

Um século nos separa.

Se tanto pode acontecer num breve instante, minha imaginação se perde, se
surpreende e se encanta ao tentar enumerar o que se passou nestes incontáveis
instantes em que ele viveu e ainda vive. Ele é Seu Zé , meu vizinho que acabou
de completar redondos , significativos e vívidos 100 anos.

Um mundo paralelo fervilhando em transformações profundas e constantes lá
fora e ele durante todo este tempo criando seu espaço, sua família , seus amigos ,
vivendo dia-a-dia, sofrendo influências, sentindo os acontecimentos, participando,
se alegrando , sofrendo, se indignando, se comovendo e fazendo da sua história
uma parte da história de cada um daqueles que cruzaram e cruzam seu caminho.

Olhando assim parece irrelevante, comum, apenas uma vida. Não, não é só uma vida.
É uma vida que ultrapassou limites que cada vez mais se ampliam. É uma vida com
marcas. Uma vida que nos mostra e nos faz questionar nossas próprias vidas. O que
fizemos , o que faremos, que marcas carregaremos conosco, que marcas deixaremos.

Cada um está aqui hoje cumprindo uma jornada . Em relação a ele, praticamente
acabamos de nascer, pelo menos eu sim, entretanto, nosso tempo nos espera,
nosso "mundo" também, a longevidade dele nos convida, abre nossas portas, amplia
nossos horizontes e nossas responsabilidades também.

É um caminho longo, é um caminho de "vida" , é um caminho de incontáveis e
insubstituíveis instantes sorrindo para nós e que já sorriram e ainda sorriem para ele.

Qual a diferença de uma vida de 001 ou 100 anos ? O valor e o respeito que damos
a ela, vivendo intensamente o que temos para viver, mesmo que seja um breve suspirar.


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Sexta-feira, Novembro 14, 2003



Sainte Chapelle - Paris

Vidros, têmperas e reflexos
Frágeis cristais
Resistentes blindados
Opacos para os que vêem de fora
Transparentes para os que vêem dentro
Lentes telescópicas vasculham
o universo desconhecido , o futuro, ...
Lentes microscópicas desvendam
o interior adormecido, o presente, ...
Vitrais me compõem
Espelhos me refletem
Candelabros me iluminam
Janelas me devassam
Cacos me alertam
Rosácea, murano
Talhados no fogo em brasa
Esculpidos à mão com suaves toques
O desejo e a vida surgem de um sopro
Sua alma sou eu


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Terça-feira, Novembro 11, 2003




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Quarta-feira, Novembro 05, 2003


.::. COMMEDIA DELL´ARTE ? .::.



Ontem pela manhã e durante a tarde, filas no INSS e burocracia, à noite ópera
- Barbeiro de Sevilha - e para finalizar , a dura realidade do mundo virtual espreitando
na madrugada.

Primeiro, as filas e a burocracia insultando pessoas de bem, na maioria simples
e idosas, cansadas , desrespeitadas, sem recursos , carentes de atenção e de um
mínimo que dê a elas possibilidade de sobreviver decentemente, sem voz , quase
implorando para terem direito a sua cidadania e não serem tratadas como números
de senhas inexistentes, jogadas umas atrás das outras, olhando de baixo para cima
sentadas no chão da rua esperando uma miséria de consideração.
Eu passivamente, olhando.

Em sequência, a arte em moldes refinados, travestida de comédia de ares populares,
beleza cênica, música requintada, platéia selecionada desfilando seus "scarpins" nos
corredores do grande teatro e nas mãos uma pequena sacola de alimento não perecível
- "doação" para campanhas solidárias - depois estas mesmas pessoas recostando-se
em cadeiras confortáveis tecendo comentários sobre a caça de perdizes e faisões e o
posterior banquete, aguardando o apagar das luzes e o início do espetáculo.
Eu passivamente, olhando.

No final do dia, comprovar mais uma vez que aqui neste "emaranhado" virtual ,
pessoas sem nenhum senso de limite, civilidade e respeito , tentando impor uma
idéia ou concepção, invadem o espaço de outras , cordiais e acessíveis, perturbando
a paz de forma ostensiva, ofendendo , ameaçando , provocando mal estar e tirando
o principal , o prazer da expressão genuína, do compartilhamento e da troca .
Eu passivamente, olhando.

Sim, carregamos responsabilidades e às vezes não nos damos conta da parte que
nos cabe, da nossa passividade , do nosso acomodamento e nem do quanto uma
simples atitude pode mudar o rumo de uma situação. Comprometimento é uma lição
com gosto amargo a ser aprendida , mas é a resposta , como carinhosamente
lembrou um amigo .
Eu "?!", fecho momentaneamene a cortina, pausa necessária para reflexão e
sequência do próximo ato.


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Sábado, Novembro 01, 2003


.::. URGÊNCIA .::.

Não, não é aquela que necessita de um hospital quando o corpo sem forças entra em
pane e o prato da balança da vida pende em alerta.

Esta é quase impalpável, mas vai alfinetando os sentidos e incomodando . Imperiosa
quer decisões, quer ação, quer a inércia definitivamente fora do jogo. Não se importa
se o momento não é propício ou se há ou não condições disponíveis.

A alma não se contenta com sobras, simplesmente quer e deseja a totalidade. Ela não
pede, exige. Impossível é palavra desconhecida.

Desafortunado aquele que se mostra indiferente ou se faz de desentendido.

Para ser sincera , bem que tento fechar os olhos, tapar os ouvidos, calar a boca e
cruzar os braços, mas felizmente não consigo.

E um sussuro premente em "off" permanece : "se vira mulher, já ! " .


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.::. Eco d´alma .::.



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.::. Par .::.


pandaandando

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.::. Eu sou .::.




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Colabore


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.::. Eco de cor .::.


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