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Sexta-feira, Abril 30, 2004



Edvard Munch

O céu está parado, não conta nenhum segredo
A estrada está parada, não leva a nenhum lugar
A areia do tempo escorre de entre meus dedos
Ai que medo de amar!
O sol põe em relevo todas as coisas que não pensam
Entre elas e eu, que imenso abismo secular...
As pessoas passam, não ouvem os gritos do meu silêncio
Ai que medo de amar!
Uma mulher me olha, em seu olhar há tanto enlevo
Tanta promessa de amor, tanto carinho para dar
Eu me ponho a soluçar por dentro, meu rosto está seco
Ai que medo de amar!
Dão-me uma rosa, aspiro fundo em seu recesso
E parto a cantar canções, sou um patético jogral
Mas viver me dói tanto! e eu hesito, estremeço...
Ai que medo de amar!
E assim me encontro: entro em crepúsculo, entardeço
Sou como a última sombra se estendendo sobre o mar
Ah! amor, meu tormento!... como por ti padeço...
Ai que medo de amar!

Vinícius de Morais


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Terça-feira, Abril 27, 2004


.::. BORBOLETAS OUTONAIS .::.


Art Wolfe

Elas estão estranhamente por todo lado , a toda hora, em inúmeras cores, formas e tamanhos...Saltam aos meus olhos onde quer que eu esteja : na lavanderia, na garagem, dentro dos quartos, no jardim, nos muros, no chão, seja na minha casa ou aqui na antiga casa dos meus avós e hoje casa da minha mãe.

Acabo por me lembrar da minha infância e do meu avô que tinha uma ligação inexplicável com elas e com o número 13.

Será que sempre estiveram me borboleteando e só agora as tenha percebido?

Soube que no Japão estão associadas a iluminação búdica e na Grécia eram sinônimo de imortalidade.

Aqui e agora são apenas um clã alado da Mãe-Terra mostrando-me que os ciclos de vida são importantes para o crescimento , e que cada pequena transformação nos guia a um novo estágio de autoconhecimento, de rompimento de barreiras e liberdade.


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Terça-feira, Abril 20, 2004


.:: PARE, AGORA ! .::.

Paro , a contragosto, no sinal de trânsito, na fila do banco, na cadeira do dentista ... e quando fico doente .

Quando a doença chega ao corpo físico é porque já adoecemos nos corpos mais sutis, já nos afastamos da proposta do nosso ser e nos negamos a aceitar os sinais que nos são enviados, desde um cílio incomodando, uma coceira, um roxinho da perna , até manifestações um pouco mais graves. A capacidade de "sentir" nestas horas, infelizmente, passa a ser relegada à um plano de menor importância. O famoso "deixar para lá".

Inúmeras são as possibilidades de estarmos com nós mesmos, presentes no momento, nos aceitando, nos acolhendo e tecendo nossa vida com genuíno prazer. Entretanto, também inúmeras são as desculpas esfarrapadas , que só convencem a nós próprios, para "darmos um jeitinho" de escapulir e nos enganar: o tempo, as responsabilidades, os afazeres, as preocupações, as causas ditas urgentes, ...

E assim sendo, sabendo conscientemente de tudo isto, porque sempre tenho que ser obrigada a parar ( " uiiiiiiiiii " ) para me relembrar que o aquietar-se de vez enquanto não é uma obrigação , é uma necessidade para podermos nos conectar conosco e com o universo, é a chave para se viver bem e com qualidade de vida?

Será que "cabeça dura" crônica tem cura ?

Tem, claro. Acredito na nossa capacidade de aprender, mesmo que seja por repetição , e na nossa capacidade de vivermos um amor incondicional, antes de mais nada , por nós próprios.

Uma parada , um passo, outro passo, uma escorregada, outra parada , mais um passo, ...


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Terça-feira, Abril 13, 2004



Pierre Bonnard

O hábito de estar aqui agora aos poucos substitui a compulsão
de ser o tempo todo alguém ou algo.

Um belo dia ( por algum motivo é sempre dia claro nestes casos )
você abre a janela, ou abre um pote de pêssegos em calda, ou
mesmo um livro que nunca há de ser lido até o fim e então a idéia
irrompe, clara e nítida :

É necessário? Não. Será possível? De modo algum.
Ao menos dá prazer? Será prazer essa exigência cega a latejar
na mente o tempo todo? Então por quê?

E neste exato instante você por fim entende, e refestela-se a valer
nessa poltrona, a mais cômoda da casa, e pensa sem rancor:
Perdi o dia, mas ganhei o mundo.

( Mesmo que seja por trinta segundos )

Paulo Henriques Britto


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Quinta-feira, Abril 08, 2004


.::. "LÁ" .::.

Um riacho podia ser visto ao longe, mas não a bifurcação logo atrás, bem como a direção que tomaram. Parei e ali fiquei me sentindo sozinha, indecisa e perdida. Não sabia como tinham ultrapassado o veio d´água e muito menos por onde seguiram, não havia nenhuma marca.

De repente, de bruços sobre uma rocha logo acima, me deparo com um homem que diz saber para onde foram. Sugere que eu faça outro percurso e estende-me a mão. Diante da minha dúvida e incredulidade fala que o destino sempre tem mais de um caminho, e o mais breve nem sempre é conhecido, claro e muito menos fácil.

Dou-lhe minha mão e vou sendo erguida delicada e vagarosamente . Tudo à volta desaparece e sou envolvida por um " nada" acolhedor e uma confiança irrestrita que me fazem flutar . Chego até ele e sigo-o com certa dificuldade por entre pedras e picadas . Num piscar de olhos "lá" estávamos.

Ele se vai e aos poucos vou me misturando e me encontrando com os outros naquele lugar colorido, caloroso e sua gente alegre e receptiva.

O tempo se perde ... e é hora de retornar. Águas abarcam meu corpo e o caminho agora era um só, sem escolha , mergulhar e fundo , a despeito do medo.

Acordo do sonho, mas o calor da mão daquele homem permanece na minha mão, suas palavras ecoam no meu corpo assim como o arrepio frio do toque da água. Estive "lá".


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