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Sexta-feira, Agosto 27, 2004



Johannes Vermeer

Olha dentro de mim
e faz deste olhar uma ponte
As expressões compartilhadas
e realçadas por um jogo de luzes
e perspectivas sutis
Cores e detalhes profundos
percebidos na simplicidade
das coisas do dia-a-dia
O entendimento pleno
A intimidade silenciosa
A alquimia de sentimentos
em tons lapis-lazuli e pérola


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Domingo, Agosto 22, 2004


.::. LIÇÃO DO IPÊ .::.


Ricardo Monteiro

Ele sabe que um inverno frio e seco é absolutamente necessário para se fortalecer e brotar. Depois de perder a totalidade de suas folhas, o que surge é uma belíssima floração que vai acompanhá-lo inclusive na primavera.

Então,, cachos de flores qual uvas na tonalidade rosa-lilás passam a realçar uma tela límpida e azul , musicada por revoadas de andorinhas e pardais.

Invernos e primaveras são ciclos que vêm e vão ... sábia e inevitavelmente.


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Quarta-feira, Agosto 18, 2004




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Sábado, Agosto 14, 2004



Henri Cartier-Bresson

Um momento em preto e branco
Desenhado em luz
Revela
Fugaz e eterno
Poesia real
Presa numa película

Pela lente dos olhos
De quem vê e sente
Se liberta outra vez
Um diafragma que inspira
O Prana
Punjente, pulsante e vivo


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Quarta-feira, Agosto 11, 2004


.:: BY BUS .::.

Ela uma morena de cabelos longos ondulados levemente desarranjados, olhos pretos e cílios imensos, pulseira e aneis de contas , sementes, prata e pedras, e na orelha um brinco de penas Penso , ali está uma índia moderna. Ele um rapaz franzino, óculos de grau, ombros retraídos e um tanto encurvados, braços cheios de livros, camiseta larga, cabelo curto castanho também ondulado . Penso, ali está um "nerd" urbano. Ambos de aparelho nos dentes, uniforme escolar e cerca de 16 ou 17 anos.

Ela sentada se oferece para segurar a pesada mochila dele. Ele agradece o oferecimento e aproveita para puxar conversa. O lugar ao lado dela vaga e ele pergunta se pode sentar-se ali , ela concorda.

Ela pensa em fazer comunicação ou filosofia. Ele ainda não se decidiu, mas gosta da área de saúde, inclusive acabou de participar de um congresso sobre medicina e espiritualidade, que ela, claro, soube ter acontecido , afinal, dizem, a alma , o corpo e a mente precisam ser entendidos em profundidade. Ela ama Platão, ele prefere Aristóteles, mas ambos concordam que a vida sem a filosofia é vazia. Ambos são espíritas praticantes e amantes das artes. Ela escreve poesias, e qual não é a surpresa descobrir que ele também. As dela são metafísicas e emocionais, as dele , em grande parte, de cunho social . Ela adora Rubem Alves e ele lê compulsivamente . Acreditam que os sentimentos não podem ser guardados, devem ser expressos e para eles escrever é uma catarse , uma necessidade quase biológica. A palavra é companheira de sangue.

A conversa segue pontilhada por versos , considerações sobre o ser humano , a vida e a existência, críticas sobre o consumismo e a globalização desenfreada , a falta de compromisso com o outro, a violência generalizada e tudo isto alheio aos passageiros que entram e saem. Percebem então , que nem ao menos se apresentaram, ela - Fernanda , ele - Tiago, sem "th". Ele quer o telefone dela , pois não acredita em encontros casuais, mas ela desconversa, embora anote o telefone dele. Ela desce no próximo ponto com as amigas contando detalhes. Ele da janela, olhar absorto e hipnotizado, a segue.

E eu ali com um sorriso silencioso me pergunto se estive sonhando . Com certeza, não. Durante alguns minutos respirei um frescor de sensibilidade e inteligência que encantada, descubro não ter idade.


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Domingo, Agosto 08, 2004


.::. SEMENTE ALADA .::.


Pal Hermansen

Suas cinzas se espalharam pelo Universo feito pólen , e seu coração verde foi replantado na Terra fertilizando e florindo minha passagem com sua presença constante repleta de amor, exemplos, ensinamentos, lembranças e muitas saudades.

Sou sua semente com cheiro de mato na pele e no peito trago suas penas revestidas de irmandade pela energia viva que emana de tudo . Sou sua essência entranhada na alma.

Vem "Pai", pousa hoje mais uma vez no meu dedo, e com suas asas eternas me leve para passearmos e revermos nossos campos repletos de estrelas.

Sua "Filhota", sempre.


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Quarta-feira, Agosto 04, 2004


.::. MIRAGEM .::.


Marsio A. Ribeiro

Rachaduras profundas se espalham criando precipícios difíceis de ultrapassar. A terra vai perdendo o viço e uma perturbadora e impessoal cor cinza se alastra. Vista de longe a paisagem monocromática realça o frio e o silêncio. Carcaças antigas ocupam espaços cada vez maiores e a dureza fica exposta. A secura abre seus braços ameaçando tomar o último gole. A água emotiva foge temerosa e se esvai por entre frestas . O deserto vai aos poucos estendendo sua cobiçosa mesa.

Ali , naquele inóspito cenário, uma batalha muda e renhida se processa a todo instante, é o sussurro da vida que clama. Sempre há os que resitem e lutam contra as intempéries. Pode ser apenas um suspiro , mas já é o bastante.


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Domingo, Agosto 01, 2004


.::. LUAFÊMEA .::.



Durante o dia a menina tímida aparece vestida em algodão azul turquesa. Comportada e discreta se mistura ao ambiente. Para quem a percebe, insinuante, deixa no ar um convite ímplícito.

À noite , em vestido prata brilhante realçando suas formas arredondadas, se envolve em veludo negro. Depois, vai chegando devagar e num piscar de olhos, perde todo o pudor e se despe. Cheia de si e nua, sedutoramente se entrega plena , exalando feitiço. Luafêmea.

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Há 35 anos o homem tocava pela primeira vez o solo lunar.

Lembro-me bem do dia. Estávamos todos em casa diante da TV. Na pequena janela da porta da sala uma toalha quebrava a claridade. O sol iluminava lá fora enquanto a lua iluminava lá dentro. Tinha cinco anos na época. Sentadinha no tapete, vez ou outra ia até a janela para ajustar a toalha e embevecida, corria de volta.

Naquela época não entendia o mistério de tanto encantamento. Hoje , tenho uma certeza. Fui despertada pelo feitiço da "luafêmea" e desde então , quando ela aparece, hipnotizada, vislumbro novamente o caminho de volta para casa, o espaço e as estrelas. A trilha? Só pode ser percorrida por aqueles que se entregam livre e despudoradamente a tudo, e principalmente , à vida.


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.::. Eco d´alma .::.



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pandaandando

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