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Domingo, Dezembro 23, 2007


.::. LUZES DE DEZEMBRO .::.

Tempo de agitação, correria, ruas cheias, festas, confraternizações, férias, compras, presentes, árvores enfeitadas, papais-noéis, cartões, novas agendas, novos propósitos, contagens regressivas, fogos de artifício, felicitações, lembranças do que agora é passado, desejos do que amanhã será o presente.

E o espírito natalino? Come-se em fartas ceias? Desembrulha-se dos papéis e fitas e depois guarda-se no fundo da gaveta ? Descarta-se com os balões coloridos?

Paramos hoje, um momento que seja , para agradecer a benção da vida que temos, as alegrias e também os percalços e tristezas que nós e os nossos tiveram pelo caminho? Paramos para aceitar o convite contínuo do novo em cada alvorecer/anoitecer e mais, para nos sintonizarmos com o maior ensinamento de uma simples e humilde criança, que simbolicamente “renasce” todos os anos para nos lembrar que “Amar” não é só uma esperança, mas uma realidade possível?

Onde ficam a nossa disposição de abrir o coração e a atitude de arregaçar as mangas e tornar este ensinamento uma prática diária, de dezembro a dezembro?

Doar e compartilhar um pouco de si mesmo... Não são necessários grandes gestos, muito pelo contrário. Bem perto de nós sempre haverá alguém ( inclusive nós próprios ) esperando por um alimento que sacie a fome, uma roupa que aqueça o corpo, um cuidado para uma saúde frágil, um material e um incentivo para estudo, um olhar atento à nossa "casa", ao ambiente e à natureza viva da qual somos parte ativa, uma palavra amiga, um ouvido atento, um sorriso espontâneo , um tempo e uma presença que alimentem a alma, o corpo, ou apenas e tão somente, uma mão estendida e comprometida a amar incondicionalmente.

Toques de amor iluminam mais que pisca-piscas reluzentes. Eles despertam e renovam os espíritos e duram mais que uma estação ... duram um instante realmente vivido.


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Quinta-feira, Dezembro 20, 2007





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Sábado, Dezembro 08, 2007



Philip Schermeister

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar numa flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro


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Terça-feira, Dezembro 04, 2007


.::. PURIFICAÇÃO .::.

Quatro horas . O gavião marrom fechou suas asas e pousou vibrando o ar. Num vôo baixo e rápido me indicou a direção. Leste. Saí do carro e o segui em passadas hipnóticas até uma espécie de ninho entre galhos secos e folhas verdes de uma palmeira logo acima. Ele , à mostra, deixou que eu, num misto de surpresa, incredulidade e comoção , o observasse enquanto "trabalhava" calmamente com o bico . Um aceno em sentido oposto desviou minha atenção e não mais o vi . De repente, enquanto as nuvens no céu tingiam-se de cinza, me falou pelo Vento - prenúncio de tempestade, chamado.

Retornei ao meu caminho, agora com o coração em batidas descompassadas na cadência de grossos pingos que manchavam o chão . Chuva intensa , ventania . Nos olhos e na alma, inquietação. Sussurro ancestral na pele. O céu em prantos pedia uma oferenda enquanto derramava bençãos . Purificação...

Em casa , uma hora depois, nua em penas, pés descalços e asas nos braços , misturando-me às poças refletidas, entreguei-me num vôo cego à Água da Vida entre as folhagens e galhos salpicados de tarde , envolvida pelo aroma de hortelã e pelo toque de sementes da árvore da felicidade. Então , após o "batismo", de joelhos, com as mãos postas no peito e com o corpo ungido e vestido somente de pura chuva e agora abençoada pela Mãe Terra, agradeci .


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Domingo, Dezembro 02, 2007


.::. pertenSER .::.



Em mãos repletas de emoções e sensações contidas, o toque real de mundos invisívies transborda viço e liberdade : o toque da natureza envolvente, o toque dos pés na terra, o toque fresco da chuva, o toque de seda da flor, o toque do ar quente nas narinas, o toque de outra criatura, o toque de todo um corpo. Interpenetrações . Trocas. Percepções de si . Percepções do todo. Delicadeza e nuances . Despertar. Despir-se. Desprender-se . Nos caminhos do bosque e nos caminhos da vida , a busca instintiva não do animal , mas do humano. Amor. Sentimento-ser, pertenSer. Estamos todos vivos.

Lady Chatterley . Um filme de Pascale Ferran. França/Bélgica/Inglaterra, 2006


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